sexta-feira, 9 de julho de 2010

Gonzaguinha

22/9/1945 29/4/1991

Quem viveu a década de 1980 e curtiu os sucessos de Gonzaguinha sempre tem na lembrança a alegria dos sambas-exaltação-à-vida "O que é, o que é" e "É", ou da animação pop de "Lindo lago do amor", ou ainda do lirismo conjugal de "Explode coração", "Grito de alerta" e "Ponto de interrogação". A primeira dedução é que seus primeiros discos tiveram esses três atributos. Certo? Errado. No início de sua carreira, bem no começo da década de 1970, ele em nada lembrava o magro barbado e simpático capaz de arrastar um público para a festança de músicas como "E vamos à luta". Muito pelo contrário: canções de teor áspero somados à ausência de beleza física lhe valeram de um jornalista paulista a designação jocosa de "cantor-rancor". Tanto que Gonzaguinha sequer se apresentava com o apelido no diminutivo, e sim com o nome de batismo, que deu nome ao primeiro disco, lançado em 1973 pela gravadora Odeon.

Até então, Luiz Gonzaga Júnior era razoavelmente conhecido do grande público, primeiro por causa do nome herdado do pai, o eterno Rei do Baião. O detalhe desse ponto é que os dois ainda tinham um relacionamento conturbado. Segundo, Gonzaguinha, integrante do Movimento Artístico Universitário (MAU), já tinha faturado um dos famosos festivais de MPB na televisão (em 1969 na TV Tupi, com a apocalípitica "O trem") e participava com frequência do programa "Som Livre Exportação", na Rede Globo, com seus colegas Ivan Lins, a então mulher deste, Lucinha, e Aldir Blanc (que tocava atabaque antes de ficar famoso como o letrista parceiro de João Bosco), mas ainda faltava a guinada principal.

Ele mantinha a postura anti-sucesso-fácil, o que não era de agrado por parte da gravadora. Seus discos compactos, estágio inicial da época para o lançamento de um trabalho completo, vendiam pouco. O último, extraído de "Luiz Gonzaga Jr.", era um caso pior: estava encalhado nas lojas. Foi então que a surpresa aconteceu. Chamado para se apresentar no programa de Flávio Cavalcanti (um Faustão da época, só que mais rabugento e elitizado), Gonzaguinha deixou os jurados horrorizados com o samba-protesto "Comportamento geral". Depois disso, a música começou a tocar nas rádios, dando visibilidade ao seu trabalho e fazendo com que os compactos desaparecessem das prateleiras, tamanhas foram as vendas por conta da repercussão. Mas durou pouco: a censura do regime militar proibiu a música e "convidou" o autor a explicar que história era aquela de "Você deve rezar pelo bem do patrão / E esquecer que está desempregado", conforme diz um trecho da letra.

"Comportamento geral" ("Você merece, você merece / Tudo vai bem, tudo legal / Cerveja, samba e amanhã, seu Zé / Se acabarem com seu carnaval?") ficou sendo a música mais conhecida do primeiro disco de Gonzaguinha. Das dez faixas, a única que demonstrava bom-humor era "A felicidade bate a sua porta", um hino fictício de programa radiofônico de auditório, que também obteve sucesso popular ao ser gravada mais tarde pelas inesquecíveis Frenéticas ("O trem da alegria promete, mete, mete, mete, garante / Que o riso será mais barato dora, dora, dora em diante"). O resto era marcado por um clima sombrio, começando pela capa: a foto de um boneco representando o compositor, com um rombo marcando-lhe a testa, como se tivesse levado uma pedrada. Uma imagem associada à canção "Moleque", um misto de desafio à ordem vigente com memórias de infância ("No tiro, estilingue, bodoque / O teco, o toque, o coque... Moleque, vem cá, moleque / Não, eu não vou lá / Vem me pegar, quero ver"). Era a segunda gravação seguida, pois ele já a havia registrado para a disputa do Festival de MPB da TV Record, em 1969, com um andamento musical mais acelerado.

No mais, os arranjos e letras tinham um quê de lirismo kitsch e, por que não dizer, punk. A primeira faixa, "Sempre em teu coração", começava com um inocente convite para dançar que culminava num refrão de temor diante do desconhecido da vida ("Um passo pra lá / No compasso da valsa / Da vida, do tempo... Sorrindo, chorando / Nos braços da vida / Na valsa do tempo..."), convite para bailar que se repete na balada "Romântico do Caribe" ("A quanto tempo a gente não dança / Um bom bolero à meia-luz?"), faixa na qual um belo solo de baixo elétrico se destaca. Sobram dor-de-cotovelo no bolerão "Minha amada doidivana", humor negro sensacionalista em "Página 13" (como a descrição sugere, a história cantada de um chefe de família que comete suicídio após matar a mulher e os filhos, com direito à orquestração de big-band) e carnaval depressivo em "Sim, quero ver" (na qual torce para ver "dessa vez o pierrot derrotando o arlequim), continuação da marchinha "Pierrot apaixonado".

Outro destaque fica por conta da repetição obsessiva do curioso refrão de "Palavras" ("Cantar nunca foi só de alegria / Com tempo ruim / Todo mundo também dá bom dia"), seguido pelo choro do bandolim e pela marcação do tímpano, numa canção ambígua (pode ser entendida tanto como uma música de protesto político quanto um desafio amoroso) que já mereceu registros de Nana Caymmi e Maria Bethânia.

Por fim, a incerteza no futuro que marcava "Sempre em teu coração" se repetia em "Insônia", última faixa ("Esse lençol gelado / E esse sono que não vem..."). O "cantor-rancor" só se transformaria em "moleque" a partir de 1976, com o lançamento de "Começaria tudo outra vez". No resumo de tudo, um Gonzaguinha, ou melhor, um Luiz Gonzaga Júnior que em nada recorda o intérprete de "Viver / E não ter a vergonha de ser feliz...".

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Mauro Santayana - Artigos





Mediafire
Coletânea de artigos desse excepcional Jornalista!

Biografia:

Mauro Santayana


Mauro Santayana (Minas Gerais, 1932) é um jornalista brasileiro.

Embora tenha estudado apenas até o segundo ano do antigo primário, o equivalente ao atual terceiro ano do ensino fundamental, ocupou, como jornalista, cargos destacados nos principais órgãos de imprensa brasileiros, especialmente na mídia impressa, como Folha de S. Paulo, Gazeta Mercantil e Jornal do Brasil, no qual mantém uma coluna sobre política. Também escreve regularmente para a Carta Maior e é comentarista de televisão.
Vida política:
Em 1964, ano do golpe militar no Brasil, colaborava com o embaixador Mário Palmério, no Paraguai, nas negociações para a implantação da hidrelétrica de Itaipu. Exilou-se, então, durante mais de dez anos, no Uruguai, no México, em Cuba, em Praga, na Checoslováquia. Trabalhou como jornalista e chefe das emissões em português da Rádio Havana, em 1966, e como comentarista político da Rádio Praga, entre 1968 e 1970. Em Bonn, na Alemanha, foi correspondente do Jornal do Brasil (1970 - 1973).

Integrou a Comissão de Estudos Constitucionais do Ministério da Justiça, que elaborava propostas para os constituintes.

Conselheiro e amigo de Tancredo Neves, foi o responsável pela articulação da campanha presidencial do então governador mineiro, representando-o em São Paulo.
Livros publicados:

* Conciliação e transição: as armas de Tancredo
* Dossiê da guerra do Saara
* Repórteres (obra coletiva).

sábado, 19 de junho de 2010

José Saramago,Este Mundo da Injustiça Globalizada.






Áudio da entrevista de Saramago ao Programa Roda Viva em 1997.
Link

Texto lido no encerramento do Fórum Social Mundial de 2002.

Começarei por vos contar em brevíssimas palavras um facto notável da vida camponesa ocorrido numa aldeia dos
arredores de Florença há mais de quatrocentos anos.
Permito-me pedir
toda a vossa atenção para este importante acontecimento histórico
porque, ao contrário do que é corrente, a lição moral extraível do
episódio não terá de esperar o fim do relato, saltar-vos-á ao rosto não
tarda.

Estavam os habitantes nas suas casas ou a trabalhar nos cultivos, entregue cada um aos seus afazeres e cuidados, quando de
súbito se ouviu soar o sino da igreja.
Naqueles piedosos tempos (estamos
a falar de algo sucedido no século XVI) os sinos tocavam várias vezes
ao longo do dia, e por esse lado não deveria haver motivo de estranheza,
porém aquele sino dobrava melancolicamente a finados, e isso, sim, era
surpreendente, uma vez que não constava que alguém da aldeia se
encontrasse em vias de passamento. Saíram portanto as mulheres à rua,
juntaram-se as crianças, deixaram os homens as lavouras e os mesteres, e
em pouco tempo estavam todos reunidos no adro da igreja, à espera de
que lhes dissessem a quem deveriam chorar. O sino ainda tocou por alguns
minutos mais, finalmente calou-se. Instantes depois a porta abria-se e
um camponês aparecia no limiar.

Ora, não sendo este o homem encarregado de tocar habitualmente o sino, compreende-se que os vizinhos
lhe tenham perguntado onde se encontrava o sineiro e quem era o morto.
"O sineiro não está aqui, eu é que toquei o sino", foi a resposta do
camponês. "Mas então não morreu ninguém?", tornaram os vizinhos, e o
camponês respondeu: "Ninguém que tivesse nome e figura de gente, toquei a
finados pela Justiça porque a Justiça está morta."

Que acontecera? Acontecera que o ganancioso senhor do lugar (algum conde ou
marquês sem escrúpulos) andava desde há tempos a mudar de sítio os
marcos das estremas das suas terras, metendo-os para dentro da pequena
parcela do camponês, mais e mais reduzida a cada avançada. O lesado
tinha começado por protestar e reclamar, depois implorou compaixão, e
finalmente resolveu queixar-se às autoridades e acolher-se à protecção
da justiça. Tudo sem resultado, a expoliação continuou. Então,
desesperado, decidiu anunciar urbi et orbi (uma aldeia tem o exacto tamanho do mundo
para quem sempre nela viveu) a morte da Justiça.

Talvez pensasse que o seu gesto de exaltada indignação lograria comover e pôr a
tocar todos os sinos do universo, sem diferença de raças, credos e
costumes, que todos eles, sem excepção, o acompanhariam no dobre a
finados pela morte da Justiça, e não se calariam até que ela fosse
ressuscitada. Um clamor tal, voando de casa em casa, de aldeia em
aldeia, de cidade em cidade, saltando por cima das fronteiras, lançando
pontes sonoras sobre os rios e os mares, por força haveria de acordar o
mundo adormecido... Não sei o que sucedeu depois, não sei se o braço
popular foi ajudar o camponês a repor as estremas nos seus sítios, ou se
os vizinhos, uma vez que a Justiça havia sido declarada defunta,
regressaram resignados, de cabeça baixa e alma sucumbida, à triste vida
de todos os dias. É bem certo que a História nunca nos conta tudo...

Suponho ter sido esta a única vez que, em qualquer parte do mundo, um sino, uma
campânula de bronze inerte, depois de tanto haver dobrado pela morte de
seres humanos, chorou a morte da Justiça. Nunca mais tornou a ouvir-se
aquele fúnebre dobre da aldeia de Florença, mas a Justiça continuou e
continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos
falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está
matando. De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido
para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o
que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente
justiça. Não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com
flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem
os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre
corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma
justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo
seria o mais exacto e rigoroso sinónimo do ético, uma justiça que
chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como
indispensável à vida é o alimento do corpo. Uma justiça exercida pelos
tribunais, sem dúvida, sempre que a isso os determinasse a lei, mas
também, e sobretudo, uma justiça que fosse a emanação espontânea da
própria sociedade em acção, uma justiça em que se manifestasse, como um
iniludível imperativo moral, o respeito pelo direito a ser que a cada
ser humano assiste.

Mas os sinos, felizmente, não tocavam apenas para planger aqueles que morriam. Tocavam também para assinalar as horas
do dia e da noite, para chamar à festa ou à devoção dos crentes, e
houve um tempo, não tão distante assim, em que o seu toque a rebate era o
que convocava o povo para acudir às catástrofes, às cheias e aos
incêndios, aos desastres, a qualquer perigo que ameaçasse a comunidade.
Hoje, o papel social dos sinos encontra-se limitado ao cumprimento das
obrigações rituais e o gesto iluminado do camponês de Florença seria
visto como obra desatinada de um louco ou, pior ainda, como simples caso
de polícia.

Outros e diferentes são os sinos que hoje defendem e afirmam a possibilidade, enfim, da implantação no mundo daquela justiça
companheira dos homens, daquela justiça que é condição da felicidade do
espírito e até, por mais surpreendente que possa parecer-nos, condição
do próprio alimento do corpo. Houvesse essa justiça, e nem um só ser
humano mais morreria de fome ou de tantas doenças que são curáveis para
uns, mas não para outros. Houvesse essa justiça, e a existência não
seria, para mais de metade da humanidade, a condenação terrível que
objectivamente tem sido. Esses sinos novos cuja voz se vem espalhando,
cada vez mais forte, por todo o mundo são os múltiplos movimentos de
resistência e acção social que pugnam pelo estabelecimento de uma nova
justiça distributiva e comutativa que todos os seres humanos possam
chegar a reconhecer como intrinsecamente sua, uma justiça protectora da
liberdade e do direito, não de nenhuma das suas negações.

Tenho dito que para essa justiça dispomos já de um código de aplicação prática
ao alcance de qualquer compreensão, e que esse código se encontra
consignado desde há cinquenta anos na Declaração Universal dos Direitos
Humanos, aquelas trinta direitos básicos e essenciais de que hoje só
vagamente se fala, quando não sistematicamente se silencia, mais
desprezados e conspurcados nestes dias do que o foram, há quatrocentos
anos, a propriedade e a liberdade do camponês de Florença. E também
tenho dito que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, tal qual se
encontra redigida, e sem necessidade de lhe alterar sequer uma vírgula,
poderia substituir com vantagem, no que respeita a rectidão de
princípios e clareza de objectivos, os programas de todos os partidos
políticos do orbe, nomeadamente os da denominada esquerda, anquilosados
em fórmulas caducas, alheios ou impotentes para enfrentar as realidades
brutais do mundo actual, fechando os olhos às já evidentes e temíveis
ameaças que o futuro está a preparar contra aquela dignidade racional e
sensível que imaginávamos ser a suprema aspiração dos seres humanos.

Acrescentarei que as mesmas razões que me levam a referir-me nestes termos aos
partidos políticos em geral, as aplico por igual aos sindicatos locais,
e, em consequência, ao movimento sindical internacional no seu conjunto.
De um modo consciente ou inconsciente, o dócil e burocratizado
sindicalismo que hoje nos resta é, em grande parte, responsável pelo
adormecimento social decorrente do processo de globalização económica em
curso. Não me alegra dizê-lo, mas não poderia calá-lo. E, ainda, se me
autorizam a acrescentar algo da minha lavra particular às fábulas de La
Fontaine, então direi que, se não interviermos a tempo, isto é, já, o
rato dos direitos humanos acabará por ser implacavelmente devorado pelo
gato da globalização económica.

E a democracia, esse milenário invento de uns atenienses ingénuos para quem ela significaria, nas
circunstâncias sociais e políticas específicas do tempo, e segundo a
expressão consagrada, um governo do povo, pelo povo e para o povo? Ouço
muitas vezes argumentar a pessoas sinceras, de boa fé comprovada, e a
outras que essa aparência de benignidade têm interesse em simular, que,
sendo embora uma evidência indesmentível o estado de catástrofe em que
se encontra a maior parte do planeta, será precisamente no quadro de um
sistema democrático geral que mais probabilidades teremos de chegar à
consecução plena ou ao menos satisfatória dos direitos humanos. Nada
mais certo, sob condição de que fosse efectivamente democrático o
sistema de governo e de gestão da sociedade a que actualmente vimos
chamando democracia. E não o é. É verdade que podemos votar, é verdade
que podemos, por delegação da partícula de soberania que se nos
reconhece como cidadãos eleitores e normalmente por via partidária,
escolher os nossos representantes no parlamento, é verdade, enfim, que
da relevância numérica de tais representações e das combinações
políticas que a necessidade de uma maioria vier a impor sempre resultará
um governo.

Tudo isto é verdade, mas é igualmente verdade que a possibilidade de acção democrática começa e acaba aí. O eleitor poderá
tirar do poder um governo que não lhe agrade e pôr outro no seu lugar,
mas o seu voto não teve, não tem, nem nunca terá qualquer efeito visível
sobre a única e real força que governa o mundo, e portanto o seu país e
a sua pessoa: refiro-me, obviamente, ao poder económico, em particular à
parte dele, sempre em aumento, gerida pelas empresas multinacionais de
acordo com estratégias de domínio que nada têm que ver com aquele bem
comum a que, por definição, a democracia aspira. Todos sabemos que é
assim, e contudo, por uma espécie de automatismo verbal e mental que não
nos deixa ver a nudez crua dos factos, continuamos a falar de
democracia como se se tratasse de algo vivo e actuante, quando dela
pouco mais nos resta que um conjunto de formas ritualizadas, os inócuos
passes e os gestos de uma espécie de missa laica.

E não nos apercebemos, como se para isso não bastasse ter olhos, de que os nossos
governos, esses que para o bem ou para o mal elegemos e de que somos
portanto os primeiros responsáveis, se vão tornando cada vez mais em
meros "comissários políticos" do poder económico, com a objectiva missão
de produzirem as leis que a esse poder convierem, para depois,
envolvidas no açúcares da publicidade oficial e particular interessada,
serem introduzidas no mercado social sem suscitar demasiados protestos,
salvo os certas conhecidas minorias eternamente descontentes...

Que fazer? Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de
estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute
neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado
definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à
consumação dos séculos, esse não se discute. Ora, se não estou em erro,
se não sou incapaz de somar dois e dois, então, entre tantas outras
discussões necessárias ou indispensáveis, é urgente, antes que se nos
torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e
as causas da sua decadência, sobre a intervenção dos cidadãos na vida
política e social, sobre as relações entre os Estados e o poder
económico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e aquilo que
nega a democracia, sobre o direito à felicidade e a uma existência
digna, sobre as misérias e as esperanças da humanidade, ou, falando com
menos retórica, dos simples seres humanos que a compõem, um por um e
todos juntos. Não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se
engana. E assim é que estamos vivendo.

Não tenho mais que dizer. Ou sim, apenas uma palavra para pedir um instante de silêncio. O
camponês de Florença acaba de subir uma vez mais à torre da igreja, o
sino vai tocar. Ouçamo-lo, por favor.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Dori Caymmi e Renato Braz



"Na Ribeira Deste Rio"

Agradecendo ao "fabianoduncan",que postou este vídeo no orkut.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Darcy Ribeiro No Roda Viva






Darcy Ribeiro nasceu em Minas Gerais (Montes Claros, 26 de outubro de 1922), no centro do Brasil. Formou-se em Antropologia em São Paulo (1946) e dedicou seus primeiros anos de vida profissional ao estudo dos índios do Pantanal, do Brasil Central e da Amazônia (1946/1956). Neste período fundou o Museu do Índio e estabeleceu os princípios ecológicos da criação do Parque Indígena do Xingu. Escreveu uma vasta obra etnográfica e de defesa da causa indígena. Elaborou para a UNESCO um estudo do impacto da civilização sobre os grupos indígenas brasileiros no Século XX e colaborou com a Organização Internacional do Trabalho (1954) na preparação de um manual sobre os povos aborígenes de todo o mundo.
Nos anos seguintes, dedicou-se à educação primária e superior. Criou a Universidade de Brasília, de que foi o primeiro Reitor, e foi Ministro da Educação, no Gabinete Hermes Lima. Mais tarde, foi Ministro-Chefe da Casa Civil de João Goulart e coordenava a implantação das reformas estruturais quando sucedeu o golpe militar de 64, que o lançou no exílio.
A propagação de suas idéias rompeu fronteiras. Viveu em vários países da América Latina, onde conduziu programas de reforma universitária, com base nas idéias que defende em A Universidade Necessária. Foi assessor do presidente Salvador Allende, no Chile, e de Velasco Alvarado, no Peru. Escreveu neste período os cinco volumes de seus Estudos de Antropologia da Civilização ( O Processo Civilizatório, As Américas e a Civilização, O Dilema da América Latina, Os Brasileiros: 1. Teoria do Brasil e Os Índios e a Civilização), que têm 96 edições em diversas línguas. Neles propõe uma teoria explicativa das causas do desenvolvimento desigual dos povos americanos. Recebeu ainda títulos de Doutor Honoris Causa da Sorbonne, da Universidade de Copenhague, da Universidade da República do Uruguai e da Universidade Central da Venezuela.
Retornando ao Brasil, em 1976, voltou a dedicar-se à educação e à política. Elegeu-se Vice-Governador do Estado do Rio de Janeiro (1982), foi Secretário da Cultura e Coordenador do Programa Especial de Educação, com o encargo de implantar 500 CIEPs, que são grandes escolas de turno completo para mil crianças e adolescentes. Criou, então, a Biblioteca Pública Estadual, a Casa França-Brasil, a Casa Laura Alvim, o Centro Infantil de Cultura de Ipanema e o Sambódromo, em que colocou 200 salas de aula para fazê-lo funcionar também como uma enorme escola primária.
Contava entre suas façanhas maiores haver contribuído para o tombamento de 96 quilômetros de belíssimas praias e encostas, além de mais de mil casas do Rio antigo. Colaborou na criação do Memorial da América Latina, edificado em São Paulo com projeto de Oscar Niemeyer. Gravou um disco na série mexicana Vozes da América. E mereceu títulos de Doutor Honoris Causa da Sorbonne, da Universidade de Copenhague, da Universidade da República do Uruguai, da Universidade Central da Venezuela e da Universidade de Brasília (1995).
Elegeu-se Senador da República (1991), função que exerceu defendendo vários projetos, entre eles uma lei de trânsito para proteger os pedestres contra a selvageria dos motoristas; uma lei dos transplantes que, invertendo as regras vigentes, torna possível usar órgãos dos mortos para salvar os vivos; uma lei contra o uso vicioso da cola de sapateiro que envenena e mata milhares de crianças. Elaborou e fez aprovar no Senado e enviar à Câmara dos Deputados a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDB, sancionada pelo Presidente da República em 20 de dezembro de 1996 como Lei Darcy Ribeiro. Publicou pelo Senado a revista Carta', com dezesseis números (1991/1996),onde os principais problemas do Brasil e do mundo são analisados e discutidos em artigos, conferências e notícias.
Entre 1991 e 1992, como Secretário Extraordinário de Programas Especiais do Rio de Janeiro, ocupou-se de completar a rede dos CIEPs e de criar um novo padrão de ensino médio, através dos Ginásios Públicos. Planejou e fundou, em Campos dos Goytcazes, no Rio de Janeiro, a Universidade Estadual do Norte Fluminense - UENF (1994), com a ambição de ser uma Universidade do Terceiro Milênio, onde assumiu o cargo de Chanceler. Durante a Conferência Mundial do Meio Ambiente - ECO 92 - realizada no Rio de Janeiro, em 1992, implantou o Parque Floresta da Pedra Branca, numa área de 12000 hectares, para se tornar a maior floresta urbana do mundo.
Ainda no exílio, começou a escrever os romances Maíra e O Mulo e, já no Brasil, escreveu dois outros: Utopia Selvagem e Migo. Publicou Aos Trancos e Barrancos, que é um balanço crítico da história brasileira de 1900 a 1980. Publicou, também, uma coletânea de ensaios insólitos: Sobre o Óbvio e um balanço de sua vida intelectual: Testemunho. Editou, juntamente com Berta G. Ribeiro, a Suma Etnológica Brasileira. Em 1992 publicou pela Biblioteca Ayacucho, em espanhol, e pela Editora Vozes, em português, A Fundação do Brasil, um compêndio de textos históricos dos séculos XVI e XVII, comentados por Carlos Moreira e precedidos de um longo ensaio analítico sobre os primórdios do Brasil. Neste mesmo ano, foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras.
Em 1995 lançou O Povo Brasileiro, que encerra a coleção de seus Estudos de Antropologia da Civilização, além de uma compilação de seus discursos e ensaios intitulada: O Brasil como Problema. Lançou ainda, um livro para adolescentes, Noções de Coisas, com ilustrações de Ziraldo, que recebeu, em 1996, o Prêmio Malba Tahan de Melhor Livro Informativo, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.
Em 1996 publicou, pela Editora Companhia das Letras, seus Diários Índios, em que reproduz anotações que fez durante dois anos (1949/1951) de convívio e de estudo entre os índios Urubus-Kaapor, da Amazônia. Seu primeiro romance, Maíra, recebeu uma edição comemorativa de seus 20 anos, que traz resenhas e críticas de Antônio Candido, Alfredo Bosi, Moacir Werneck de Castro, Antônio Houaiss, Carmen Junqueira e outros especialistas em literatura e antropologia. Ainda neste ano, recebe o Prêmio Interamericano de Educação Andrés Bello, concedido pela OEA a eminentes educadores das Américas.
Darcy Ribeiro faleceu em 17 de fevereiro de 1997. No seu último ano de vida, dedicou-se especialmente a organizar a Universidade Aberta do Brasil, com cursos de educação a distância, para funcionar a partir de 1997, e a Escola Normal Superior, para a formação de professores de 1º grau. Organizou a Fundação Darcy Ribeiro, instituída por ele em janeiro de 1996, com sede própria, localizada em sua antiga residência em Copacabana, com o objetivo de manter sua obra viva e elaborar projetos nas áreas educacional e cultural. Um de seus últimos projetos lançado publicamente, foi o Projeto Caboclo, destinado ao povo da floresta amazônica.



Link

terça-feira, 25 de maio de 2010

Sergio Sampaio: cahorro,bandido e policia



Crédito araujo790 do youtube.

Sérgio Moraes Sampaio (Cachoeiro de Itapemirim, 13 de abril de 1947 - Rio de Janeiro, 15 de maio de 1994) foi um cantor e compositor brasileiro e, no dizer do cantor Lenine, um nome marginalizado que equipara a Tim Maia e Raul Seixas, como um dos "malditos" da música popular brasileira.
Suas composições variam por vários estilos musicais, indo dos folclóricos samba e choro, ao rock'n roll, blues e balada.

Sobre a poética de suas composições, em que se vê elementos de Kafka e Augusto dos Anjos, que lia e apreciava,[1] declarou num estudo Jorge Luiz do Nascimento: "A paisagem urbana em geral, e a carioca em particular, na poética de Sérgio Sampaio, possui a fúria modernista. Porém, o espelho futurista já é um retrovisor, e o que o presente reflete é a impossibilidade de assimilação de todos os índices e ícones da paisagem urbana contemporânea."

Paulo César Pinheiro - Dori Caymmi Evangelho



Evangelho
(Paulo César Pinheiro - Dori Caymmi)

Êta mundo que a nada se destina
Se maior se faz, mais se arruína
Se mais quer servir, mais nos domina
Se mais vidas dá, são mais os danos
Se mais deuses há, mais são profanos
Estes pobres de nós seres humanos

Êta vida, essa vida de infelizes
Quanto mais coração, mais cicatrizes
No amor é que a dor cria raízes
De dentro do bem é que o mal trama
Da felicidade cresce o drama
Dessas tristes de nós vidas humanas

Êta tempo que em pouco nos devora
O pavio da vela apagará
Quanto mais se partir tempos afora
Mais nos tempos de agora se estará
E mais tarde quando o tempo melhora
A nossa mocidade onde andará?

Êta morte que acaba tempo e vida
O mundo não conseguiu saída
É o fim mas pode ser o começo
Quem tenta fugir faz sempre o avesso
E quanto mais vidas se cultiva
Mais a morte alimenta a roda viva.